Ontem foi mostrado aqui no Clique, o novo livro lançado por Thordis Elva, que tem como coautor Tom Stranger. Confira, Um livro que fala sobre a reconciliação entre vítima e agressor.
Quem leu a matéria, já sabe que no ano de 1996, Elva foi violentada por Stranger. Eles namoravam há um mês quando o crime ocorreu.
Agora, juntos, os dois têm dado palestras ao redor do mundo, contando a experiência. Uma delas aconteceu em outubro do ano passado na conferência TED.
Em meio a diversas críticas que receberam, a dupla respondeu uma série de questões feitas pelo pessoal do TED. Confira elas agora e depois nos diga o que você pensa sobre a decisão de Thordis Elva.
Essa é uma conversa bem pessoal. O que te fez contar ao público?
Thordis Elva: Ficou na minha mente a dúvida de como esse assunto seria recebido, e eu estaria mentindo se dissesse que foi uma decisão fácil. Mas o mais importante é que, do fundo do meu coração, eu sei que ouvir uma história como a que eu compartilho com o Tom, teria feito uma imensa diferença para mim quando eu era mais jovem. Como sobrevivente, teria me ajudado a entender que a vergonha não era minha para eu ter que carregar, e que existe esperança em encontrar a felicidade na vida mesmo depois de uma experiência destruidora como a do estupro. Além disso, talvez por ouvir a nossa história, outras pessoas possam perceber como é indispensável obter consentimento para todas as atividades sexuais. Em última análise, diminuir a probabilidade de outras pessoas serem abusadas.
Tom Stranger: O momento que se passou desde aquela noite em 1996 até agora, tem sido longo e cheio de incertezas. Reconhecemos que as escolhas e dores do nosso passado não são exclusivas para nós e estão situadas dentro de uma questão social profundamente difundida. Ao tornar público o nosso TED talk e o nosso livro, e falando sobre os 20 anos de reconciliação, não estamos procurando oferecer um manual de metodologia para outros sobreviventes ou perpetradores de estupro, mas simplesmente oferecer uma história. Uma comunicação pessoal que possivelmente pode dar esperança aos outros e adicionar as nossas vozes para essa discussão pública.
Como você se preparou para a palestra?
TS: Tivemos em consideração a escrita, discussões on-line em diferentes fusos horários, edições significativas e ensaios frequentes. Também não teria sido possível sem a orientação dos nossos dois treinadores incríveis.
A cronologia da nossa história foi dividida em períodos, e cada um de nós se comprometeu a falar honestamente. Fizemos o possível para que a nossa audiência soubesse o que estava em nossa mente, e selecionamos a linguagem que seria adequadamente atenciosa, mas que também fizesse justiça às nossas partes individuais. Antes da palestra, foi dedicado um período intenso de ensaios. A conversa se repetiu vezes o suficiente para que colocássemos sentimentos genuínos nas palavras.
TE: Depois de termos lançado esse trabalho de base, trabalhamos individualmente na questão da memória, por vezes em circunstâncias muito estranhas. Eu admito que, por um tempo, eu era a estranha que falava sozinha no ônibus.
Tom, você mostra uma contrição óbvia na conversa. No entanto, certamente é um pouco difícil para algumas pessoas ver você no centro do palco. O que você diria a alguém que sente que você está tentando se retratar como um herói?
TS: Eu reconheço isso como um questionamento válido, e não ofereceria qualquer argumento para contrariar tal opinião. Tanto quanto posso transmitir, reconheço que o fato de eu estar no palco com as pessoas me ouvindo, será desafiador e desencadeante.
Reconheço que minhas escolhas do passado invalidam qualquer aptidão para elogios atuais ou futuros.
O risco de eu receber qualquer elogio por estar em uma conferência TED com Thordis, e falar a nossa história, é algo que ambos se esforçaram para evitar. Eu acredito que aceitar suas escolhas passadas não deve ser visto como um ato heróico, mas sim como uma obrigação e um reconhecimento necessário da culpabilidade individual.
Eu também estou investindo em aprender maneiras de melhorar a abordagem que uso para partilhar a minha parte da nossa história.
Thordis, você já hesitou em dar palavra ao homem que te violou?
TE: Sim. Eu entendo aqueles que me criticam como alguém que permitiu que um perpetrador tivesse voz nessa discussão. Mas acredito que muito pode ser aprendido ouvindo aqueles que também fizeram parte do problema – se estiverem dispostos a fazer parte da solução – sobre quais foram as ideias e atitudes que geraram as ações violentas, para podermos trabalhar no desenraizamento de forma eficaz.
Depois de ter dedicado a minha carreira à prevenção da violência sexual, participando há mais de uma década em conferências desse assunto, eu percebi que muitas vezes isso é tido como um problema das mulheres, quando na verdade é uma questão humana que afeta todos os países.
A minha convicção é que todos nós somos necessários quando se trata de prevenir a violência e criar comunidades mais seguras.
Tom, quando você contou aos seus familiares e amigos sobre o estupro? Como eles reagiram?
TS: Em 2011 eu tive essa conversa pela primeira vez com a minha família. Desde então, eu fui contando gradualmente sobre as minhas escolhas e ações do passado ao meu círculo mais interno de amigos. Já tive muitas conversas honestas e sinto que estou melhor quando se trata de expressar corretamente as minhas ações e as consequências delas naquela noite, tanto para Thordis como para mim.
Eu sou abençoado com o apoio de amigos e da minha família, que, na maior parte, me vêm além das minhas ações. Primeiramente, as reações que eu recebi foram receptivas, calorosas e pensativas. Confusão e ruminação têm sido comuns por eu ter mantido esse segredo por tanto tempo.
Compreensivelmente, meus relacionamentos com algumas pessoas próximas a mim foram, e serão, afetados. Amigos e familiares que me vêm de uma forma diferente, não mudaram de opinião sobre mim, uma vez que eles aprenderam sobre a minha ocasião de cometer o estupro.
Como as pessoas reagiram ao te ver dando uma palestra no TED?
TS: Eu fui pego de surpresa pela gratidão de homens e mulheres que vieram até mim e expressaram o seu apoio. Foi imensamente fortalecedor ter a nossa história recebida dessa forma. Sendo em uma conferência que se concentrou em questões relacionadas com as experiências atuais das mulheres em todo o mundo, fiquei honrado em falar para a comunidade. Receber qualquer confirmação de que os participantes viram valor e importância na partilha da nossa história foi uma experiência verdadeiramente profunda.
Eu também recebi um feedback precioso e extremamente valioso. Ainda carrego comigo as calorosas respostas que tivemos, e as avaliações e reações construtivas e pessoais me ajudaram a entender melhor a posição e experiência dos outros, me ajudando a falar da nossa história com mais sensibilidade.
TE: Em suma, as respostas foram melhores do que eu havia esperado. Entre outras coisas, eu recebi abraços apertados, e-mails gentis e palavras encorajadoras que sempre estarão em meu coração, servindo como uma inspiração para eu continuar esse trabalho. Será interessante ver uma resposta global e um grande número de reações.
Como você gostaria que o público reagisse com a sua história? Qual você acha que é “a ideia que vale a pena se espalhar” dentro dela?
TE: A violência sexual é uma das maiores ameaças para as mulheres e crianças do mundo todo, e também afeta a vida de muitos homens. Um problema desse tamanho e magnitude requer mudanças e atitudes necessárias para que aqueles que perpetram a violência assumam a responsabilidade por ela, ao invés de a submeter para outros. Muitas vezes, os sobreviventes são erroneamente culpados e envergonhados, ou em casos extremos, são até mesmo mortos por terem sido violentados. Isso promove uma cultura de silêncio, que possibilita mais violência. Eu acredito que é um círculo vicioso, e a contramedida mais forte é levantar a sua voz.
Dito isto, Tom e eu não estamos nos apresentando como modelo de comportamento cujas ações devem ser defendidas de qualquer maneira. Estamos simplesmente compartilhando a nossa história na esperança de que ela possa ser útil para pessoas que compartilham uma experiência semelhante, e servir como um lembrete para todos sobre a importância do consentimento sexual.
TS: Eu não acredito que, como um perpetrador, eu tenha o direito de esperar ou prever como as pessoas vão reagir com essa história. Eu só posso esperar que, ao ouvi-lá, as pessoas saibam que existe ajuda e eles têm acesso a ela.
Se o público se envolver com a nossa história, espero que tenhamos demonstrador que o silêncio e a negação podem ser tóxicos, que é errado abordar a violência sexual como uma questão apenas feminina e que cada um pode ter um papel na busca de soluções para esse problema global.

















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