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Comportamento

O cinema é a minha casa

Publicado em 1 de fevereiro de 2017 por

De um cantinho em Minas para o gigantesco mundo da internet, o cinema, assim como nós, se renova e se transforma.

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Quando eu era baixinho, em algum lugar pequeno de Minas, meu passatempo eram os campinhos de futebol, o rio e as fazendas. As fazendas depois do rio. E as fazendas ao longo da BR 116.

Mas eu ainda era criança, quando tive o meu primeiro contato com o cinema. Através do cartaz de um filme de terror, no cinema quase em frente à minha casa, numa esquina. Um cartaz com uma grande caveira. Nada assustador. A molecada chamava as caveiras de boca de forno. “Boca do forno” era uma brincadeira bem na moda naquele tempo. Objetos eram escondidos no forno para a molecada ir procurar. Acho que era assim. E a analogia do forno com as enormes cavidades nasais da caveira surgiu instantaneamente. Depois ficou em cartaz o filme “Dio Come Ti Amo”. Proibido para os baixinhos, mas com uma bela música, presente em quase todos os lares.

Quando o cinema mudou para a rua de cima, bem mais longe da minha casa, eu tive o meu contato real com a Sétima Arte. O 1ª Ano do grupo escolar recebeu entradas gratuitas para o filme “Meu nome é Pecos”. Não foi o bastante para me arrebatar. Meu lazer continuou sendo o futebol, o rio e as matas. Mesmo assim, esporadicamente, eu frequentava o cinema da rua de cima. Assisti a alguns filmes de caratê, com o falso Bruce Lee, um tal de Bruce Liang. Algo assim. Um dia fui arrebatado pela música de certo Huang Mao Shan, do filme “A expedição dos dragões condenados”. Apenas com o advento da Internet eu percebi a semelhança daquela música com as do mestre Ennio Morricone, dos faroestes de Sérgio Leone.

Quando o cinema da rua de cima passou um filme famoso, poucas pessoas foram conferir. E saíram xingando o dono do cinema. Acostumados com pornô e caratê, ninguém gostou do Star Wars de 1977. Depois de Star Wars, vieram os filmes de 007. E, depois, novamente, os filmes de caratê e pornô. “O último tango em Paris” era proibido para mulheres. A curiosidade fez uma moça entrar no cinema, disfarçada de homem. Com terno e bigodinho. Também desfilou pela tela do cinema da rua de cima um filme chamado “Starvisky”, “Inocência”, “Kramer X Kramer” (anunciado nos alto-falantes como “Xiramer e Xiramer”), muitos Faroestes, Dráculas, Sônias e Bragas e então veio o fim. Os cinemas do interior de Minas foram-se fechando. Viravam igrejas, academias de musculação, prédios de apartamento, armazéns.

Infelizmente, só depois da morte dos cinemas, eu me apaixonei pela Sétima Arte e entrei numa corrida louca para resgatar o tempo perdido. Os grandes e pequenos filmes da história do cinema, tive de vê-los pela televisão, em vídeos e DVDs. Recuperei os filmes de James Bond. Os filmes de Bruce Lee. Os filmes de John Ford. Assisti a todos os Star Wars. Hoje eu sinto falta da telona, quando vejo, em parte, ou completos, filmes como “Lawrence da Arábia”, “Dr. Jivago”, “O Sétimo Selo”, “Homem-Aranha” e, claro, Guerra nas Estrelas.

Tantas preciosidades me fizeram estudar um pouco de cinema. Tudo estava bem, até eu chegar aos detalhes técnicos e aos making of embutidos nos DVDs. E a magia do cinema foi embora. Eu não conseguia mais assistir a um filme sem ver os microfones, as câmeras, as claquetes, os panos verde e azul dos chroma keys, os diretores gritando “Corta!”

Quando voltei a ver um filme com os olhos de uma criança, eu não parei mais. E depois de tantos filmes, tornei-me um crítico. Mas não analiso se o filme foi tecnicamente bem feito, se a atriz é bonita, se o ator é feio, se o cineasta é ou não um bom diretor de atores, se existe muito CGI, mais computadores e pouca alma. Outro dia surpreendi-me, na Internet, defendendo o filme “Gente Grande”, do Adam Sandler. Apenas por que o cara falou que o filme era vazio, e ele esperava algum conteúdo. A minha resposta:

“Pois é. Ler resenhista metido e preconceituoso também faz sofrer. Principalmente quando você está pesquisando sobre o filme e é “vomitado” pelo Google para um blog desses. Se você quer filme “cabeça” atenha-se a Ingmar Bergman e similares. Comédias são para passar o tempo. Puro divertimento.”

Depois dessa irritação sem tamanho, e desnecessária, desisti de ser crítico, comentarista, resenhista, e concluí uma coisa: críticos fazem você ir ao cinema e críticos tiram você do cinema. O importante é você gostar, ou não gostar, de uma história, seja ela contada de trás pra frente, com flashbacks, ou linearmente.

Existe uma unanimidade de filmes ruins. E existe uma unanimidade de filmes bons. Porém, como disse Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”.

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