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Literatura

Um livro que fala sobre a reconciliação entre vítima e agressor

Publicado em 20 de março de 2017 por

Um relato surpreendente que engloba os dois pontos de vista.

reconciliação entre vítima e agressor
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Em 1996, a vida da jovem Thordis Elva, mudou completamente. Ela tinha 16 anos quando foi estuprada pelo então namorado, Tom Stranger.

O caso, que só veio à tona anos depois, aconteceu na capital da Islândia, Reykjavik.

O estudante de 18 anos, Stranger, estava fazendo um intercâmbio quando conheceu Elva. “O meu professor recomendou que eu tentasse o teatro da escola, para me tornar um pouco mais ativo socialmente. Acabei por não fazer parte da peça, mas através dela conheci Thordis.”, ele conta. 

A paixão entre os dois, fazia com que Elva se sentisse sortuda em ter alguém como ele e, o baile da escola, era o evento perfeito para a oficialização da relação.

Por estar passando mal durante a festa, Tom levou Thordis para casa, dando início a um ato criminoso e de extrema violência. O namorado que ela amava, a violentou naquela noite. “A minha cabeça estava melhor, mas o meu corpo ainda estava muito fraco para conseguir lutar e a dor me cegava. Parecia que eu estava sendo cortada em duas. Para me manter lúcida, contei, silenciosamente, os segundos no meu relógio. E desde aquela noite, sei que duas horas têm 7,200 segundos.”. 

Tempo para recuperar

Machucada e com medo, Thordis Elva não denunciou o crime. Na sua cabeça, ainda ecoavam frases como “tinha sido minha culpa”.

Ela, como todas nós, nasceu em uma sociedade que atribui a violação como sendo culpa da vítima. É preciso mudar essa realidade tão machista que insiste em criar “normas de comportamento” para dizer o que temos que fazer para não sermos estupradas.

Nasci num mundo em que as mulheres são ensinadas que são violadas por alguma razão. Ter uma saia muito curta, estar muito sorridente, ter bebido. E eu era a culpada de todas essas coisas, por isso, a culpa tinha que ser minha. Demorei anos para entender que apenas uma coisa podia ter impedido que eu fosse violada naquela noite, e não era a minha saia, não era o meu sorriso, não era a minha confiança infantil. A única coisa que podia ter impedido que eu fosse violada naquela noite era o homem que me violara — se ele tivesse parado.” 

Lançamento do livro

Ao todo, já haviam se passado nove anos, quando Thordis, consumida em ódio e perdendo o seu amor-próprio, resolveu entrar em contato com o ex namorado.

Em busca de paz, ela precisava falar sobre o que tinha acontecido e, a melhor forma que encontrou para fazer isso, foi enfrentando o problema ao lado da pessoa que o causou.

Os e-mails trocados por oito anos, resultaram em um livro onde Tom Stranger é o coautor: South of forgiveness.

“South of forgiveness é uma colaboração entre uma sobrevivente e um agressor, cada um igualmente empenhado em explorar o momento mais sombrio de suas vidas. É uma história verdadeira sobre ser machucado, enfrentar o medo com coragem, e de encontrar esperança, mesmo nos lugares mais feridos.”.

Respostas negativas e conferências TED

Thordis e Tom Stranger também participaram das conferências TED (saiba aqui o que isso é), em outubro do ano passado.

Com visualizações que ultrapassaram mais de 2 milhões de pessoas, as opiniões se dividiram e causaram furor.

Algumas das críticas colocadas foram o posicionamento que Stranger ganha na história e o benefício que ele teria com o lançamento do livro. Mas elas não impedem Thordis de continuar ao lado de Tom na divulgação do livro e realização de palestras. “O que fizemos não é uma fórmula que receitamos para os outros. Ninguém tem o direito de dizer a outrem como lidar com a sua dor ou com o seu erro mais grave. Quebrar o silêncio nunca é fácil e, dependendo do local onde estamos, pode ser fatal falar sobre violação. Sei que mesmo sendo o acontecimento mais traumático da minha vida, continua sendo uma prova do meu privilégio, porque posso falar sobre isso sem ser hostilizada, ou mesmo morta. Mas com esse privilégio de ter uma voz vem a responsabilidade de usá-la. É o mínimo que posso fazer pelas minhas amigas sobreviventes que não podem falar.”, ela relata. 

E você, o que pensa sobre isso?

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